A Última Ceia

Faz quase um mês que o concurso da Annita terminou… meu texto levou goleada na fase final e eu até esqueci de postar aqui…

 Depois de quase 4 meses de estar pronto e depois de muita gente ter lido, aí está o texto do concurso…

Boa leitura…

Gabriel estava bêbado. Jantara com alguns amigos e depois foram para uma festa. Agora, no silêncio de sua sala de estar, estava pensativo. Uma taça de um bom Cabernet Sauvignon argentino na mão; sentou-se no velho sofá e deixava sua mente viajar. À sua frente, apenas uma parede branca com um quadro… Jesus e seus doze apóstolos estavam à mesa no que seria a última ceia deles juntos. Naquela réplica da famosa pintura de Da Vinci, uma dúzia de homens estavam consternados, enquanto o personagem principal estava sereno, já sabedor e conformado com seu próprio destino. Gabriel ouvia algumas vozes que pareciam vir da rua… palavras que não distinguia, mas parecia entender bem o que queriam dizer… tinham tom de acusação, denúncia, defesa e negação… “mais uma discussão no edifício ao lado” – pensou, enquanto enchia novamente o cálice e deixava a garrafa ao lado do sofá, como fizera milhares de vezes antes daquele dia. Olhou novamente para o quadro… tudo lhe pareceu normal quando André postou as mãos na mesa para levantar-se; Pedro disse a João “Pergunte-lhe quem de nós será o traidor” e voltou ao seu assento; Tiago levantou-se, indignado da mesa; João curvou-se para o mestre e perguntou-lhe aos sussurros “Quem de nós o será, Senhor?”; Filipe pôs-se a chorar por pensar que seria ele o traidor; Natanael e Tiago conversavam tentando buscar sinais de quem o seria; Mateus, Tadeu e Simão não ouviram o q ele dissera, por estarem longe na mesa; Tomé assim disse ao Mestre “Um traidor? Não posso acreditar!”; e Judas apenas buscou o pão à mesa, encontrou a mão do seu Mestre, que lhe falou “O que tens a fazer, fazei-o agora”… ele levantou e afobou-se para fora da mesa.

Gabriel também não estranhou quando Judas precipitou-se para fora do quadro, passou pela sala e, desbotado, correu porta à fora, deixando-a entreaberta. Os outros onze apóstolos pensaram que ele iria providenciar algo que estava escasso para a ceia, pois ele saíra com a bolsa. Aos poucos, Simão, que cuidava do descanso e diversão do grupo, juntamente com André e Tomé, líderes dos doze, convocou os outros oito para a ceia de Gabriel. Apenas Jesus ficou no quadro… imobilizado, com o mesmo semblante sereno… nada poderia fazer para evitar a ceia de Gabriel, seus seguidores estavam decididos à realizá-la.

Enquanto esperavam Judas voltar com o quer que fora buscar, João e Pedro ficaram ao lado de Gabriel, ouvindo-o e aconselhando-o sobre o que encontraria pela frente; ele, porém, não compreendeu muita coisa, por conta dos versos e anedotas singelas que os dois usavam para se comunicar. Filipe, o mais curioso, já abria as portas do armário da cozinha, para saber o que teriam para o jantar; ao seu lado, Mateus rabiscava num papel uma lista e pediu para Tiago e Tadeu irem às compras, sem esperar que Judas fizesse aquilo direito. Tiago, o maior, ajeitava a pequena mesa onde os treze comeriam e conversariam por horas.

Gabriel continuava sentado, taça de vinho tinto na mão, pés descalços… sabia o que tinha a fazer na condição de anfitrião: praticamente nada, pois estavam todos tomando conta dos afazeres para que tudo saísse dentro nos conformes.

Assim que Tiago e Tadeu chegaram com as compras, um milagre aconteceu: multiplicaram-se as cadeiras e o espaço à mesa; agora contavam-se treze assentos confortavelmente espalhados em volta da mesa de madeira rústica, recoberta com uma fina manta de algodão branca. Ali, então, espalharam a comida e a bebida: pães, vinhos e, a despeito do que figurava no quadro atrás da mesa, alguns peixes, já que mais da metade dos apóstolos foram pescadores em tempos idos. Ainda sentiam a falta de Judas… passara-se muito tempo que ele saíra, mas não se preocupariam em esperá-lo para cear, já que estava ficando comum a ele sumir sem avisar e retornar horas depois.

Sentaram-se à mesa, seguindo a ordem que estava no quadro atrás deles; Gabriel estava no centro, à sua esquerda estavam Tiago, Tomé, Filipe, Mateus, Tadeu e Simão; na direita, havia João, a cadeira vazia de Judas, Pedro, André, Tiago e Natanael. Cearam… ouvindo histórias de vida que Gabriel não contava: suas passagens terrenas não eram muito dignas de serem divididas como aprendizado ao grupo. Filipe apenas ficava quieto, observando a todos com grande curiosidade, enquanto Simão e Mateus eram os que mais falavam. Tomé apenas indagava às afirmações dos amigos: ”Não creio!”… Pedro continuava contando passagens a João, o mais novo, para que ele não repetisse os erros dos mais velhos… e assim seguiu-se por algumas horas…

Judas surgiu, finalmente, quando todos estavam satisfeitos e conversavam sem preocupações. Parecia estar preocupado, um pouco carrancudo até; André indagou: “Aí o está… Judas, perdeste a ceia, amigo!”. Natanael levantou-se da mesa para recebê-lo e, ao ver que o amigo não desfez a expressão obscura, perguntou: ”Por que esta cara, Judas?”. Ele olhou nos olhos de Gabriel e respondeu: “Vocês bem sabem o que fiz há cerca de dois mil anos… não é à toa que viemos aqui e preparamos uma ceia similar à nossa última ceia com o Mestre; posso, por mais milhares de anos, ser visto como traidor, mas completei minha tarefa entre os doze e eis que chegou a hora deste nosso anfitrião, a quem chamamos Mestre esta noite, aceitar seu destino”. Natanael, seguido dos outros onze à mesa, sentiu calafrios ao ouvir essas palavras e, principalmente, ao ver um cavalo negro, com um montador vestido com uma túnica escura como a noite em eclipse e uma grande foice à mão entrar pela porta atrás de Judas; os olhos, por baixo do capuz do montador, eram as únicas partes não negras ali: eram vermelhos, brilhavam de modo assustador; um vapor escuro, fétido como enxofre, era expelido pelo cavalo. Gabriel pulou sobressaltado do sofá… respirou fundo até entender que aquilo não passara de um sonho. Nos pés, sentiu o molhado do vinho que derrubou enquanto dormia; o tapete estampava uma grande mancha avermelhada. Levantou-se dali para pegar um pano e diminuir e estrago do borrão que ficaria. Olhou para a figura, na grande parede branca… estavam todos de volta aos seus lugares. Correu até o tanque e pegou um velho pano de limpeza; virou-se e viu, no chão, um rastro de um líquido viscoso, vermelho vivo. Ali, ao lado de André, Judas não mais olhava para João e Pedro… encarava-o de frente, com olhos vibrantes vermelhos, seu rosto parecia entristecido, como se fora forçado a algo por contragosto… as mãos de Gabriel estavam sangrando, assim como os pés e sua testa… os rastros que se estendiam até ele não eram do vinho, mas de seu próprio líquido venal… arrastou-se até o sofá novamente; percebera que não tinha o que fazer senão aceitar sua sina, como Judas lhe dissera em seu sonho… olhou para o quadro; ao lado direito de Jesus de Nazaré, sua própria imagem aparecia desbotada, com uma veste azul e uma manta verde. Judas pegou o pão que Gabriel lhe oferecera e beijou-lhe o rosto… chamava-o para seu destino.

2 responses

31 03 2008
Lipe

Puta merda, não acredito! tinha tudo pra ganhar cara!

atualiza isso aqui, que eu preciso de leitura, maldito!
Mais uma vez parabéns, Mauricenho!

Da próxima vez, coloque minha amiga Rosana na competição, ela acabara com qualquer um, MUAHAHAHAH!

abraaaço!

24 08 2008
Srta Emy

Txa porraaaaa….
Não ganhou????
Escreve muito hein?
:**

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