Amor Quase Incondicional

História meio tétrica, a minha cara…rs… boa leitura

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O dia estava ensolarado, o grande relógio da sala acabara de bater quatro vezes. Lúcia mal ouvira as batidas; estava na banheira, com sua habitual garrafa de vinho tinto ao lado. Tinha em seus pensamentos Guido, único homem de sua vida. Pegara a taça e secara-a, num único gole. Em meio à espuma, pegou a esponja e, carinhosamente, passou-a no pescoço, no colo dos seios, nas pernas e subiu até seu ventre onde parou por alguns instantes. Lembrou-se da última vez em que estiveram juntos e de quão carinhoso ele fora… suas promessas e carícias em seu corpo… o abraço forte e a delicadeza ao amá-la.

Guido era um homem atraente; pele branca, cabelos e olhos negros, grandes costeletas ao longo do rosto, juntando-se abaixo do queixo. Tinha um corpo esguio e alto; vestia-se sempre muito bem e ainda muito novo, contabilizava seus 28 anos quando nomeado à vice-presidência da nova companhia do aço que se instalara na cidade há menos de dois anos. Apesar de estar em casa, em pleno domingo à tarde, vestia-se como de costume: camisa branca, terno preto e gravata azul-marinho. Sentava-se ao lado da lareira e lia, calmamente, o periódico citadino. Puxou o relógio de seu bolso e este mostrava que passaram cinco minutos das quatro horas da tarde. Inquietou-se um pouco; ela nunca atrasara um de seus habituais telefonemas das 16:00. Disfarçou o nervosismo e tirou o grande telefone do gancho; começou a discar.

Lúcia, demoradamente, limpou a espuma das mãos e retirou o telefone do gancho. Conversaram por menos de três minutos. Ao colocar o aparelho de volta em seu lugar, seu rosto estava transformado. Ela não reconheceu a voz áspera do amante, muito menos queria acreditar nas barbáries que ele lhe dissera. Não passava por sua cabeça que, um dia, ele escolheria a esposa e não ela; não imaginava ser deixada ao relento após tantos bons momentos que passara ao lado dele.

Após o telefonema, Guido sentia-se bem… continuava a ler o tablóide em suas mãos… provara que ele não precisava dela, que ela era apenas um capricho de um homem poderoso e que não se repetisse um atraso tão insolente como aquele. Fora ríspido, mas não importava, pois ela era apenas um belo par de pernas que sustentava fora de sua casa. O apartamento, as sedas, as jóias que ela tinha… deveria agradecê-lo por seus luxos de outra forma que não tão desrespeitosa.

Ela, ainda na banheira, chorava. Levou as mãos ao rosto tentando conter os soluços; em vão. Jogou a taça, com um pouco de vinho, no grande espelho do banheiro, onde tantas vezes vira o rosto dele. A taça estilhaçou-se e grandes cacos espalharam-se por todo o chão do banheiro. Sentia vergonha de si mesma; de ter-se sujeitado àquilo: Amante. Podia ver a recriminação que a velha mãe teria no olhar ao descobrir o que se tornara, a surra q levaria do pai… seria recriminada pela sociedade por toda vida… aquilo não poderia ficar assim… se fosse o fim dela, seria o dele também.

Guido ouviu seu filho, Arthur, chamá-lo para o chá das 17:00. Cultivavam o que consideravam uma das mais ricas tradições de sua família; a mesa estava amplamente servida de chás, leite, café, bolos, pães, frios e frutas da época… sua esposa estava servindo-lhe de leite em seu chá quando o telefone tocou novamente. Ele levantou-se calmamente, pediu licença à esposa e filho e retirou-se em seu escritório, onde poderia conversar sigilosamente com quem já sabia estar telefonando.

Lúcia, naquela última hora, tomara uma decisão difícil… e de tal resolução, não teria retorno… drenou a água morna da banheira, retirou toda a espuma e tornou a enchê-la de água, mas desta vez fria. Enquanto o líquido gelado transbordava e molhava-lhe os pés, postou-se à frente do espelho e maquiou-se, contendo as lágrimas… “Ele viria, tenho certeza disto” pensava ao passar sombra em torno de seus olhos verdes “Como o mar que vemos de sua janela, enquanto nos amamos” comparava ele. Pegou uma pena e uma folha de papel, uma nova taça para o vinho e deitou-se novamente na banheira. Sua pele branca arrepiou-se com o frio daquela água; serviu seu novo cálice com o que restava do vinho na garrafa e derrubou-a no chão, os cacos de vidro verde juntaram-se aos transparentes da taça quebrada anteriormente. No pedaço de papel, escreveu palavras de amor e devoção… arrependimento e ódio… angústias e tristeza… uma lágrima correu-lhe o rosto e, caprichosamente, carimbou o papel em pleno ‘L’ de sua assinatura. Estava feita a carta que ele leria “Ele virá… assim que eu estiver pronta, ele virá” repetia para si mesma. Olhou para um dos cacos de vidro verde no chão e pegou-o; “Verde… a cor preferida dele… do verde se fará o vermelho” e, num ato planejado por cerca de uma hora, cortou a pele de seus pulsos com o objeto. Sentiu-se aliviada a medida que o sangue jorrava pelos punhos… teve o cuidado para não deixar o líquido vermelho manchar a água da banheira, colocando os braços para fora da banheira. Ouvira as cinco badaladas do grande relógio da sala; pegara o telefone e discara.

Passou-se apenas dois minutos que Guido tinha o telefone em mãos; desligou com perplexidade no olhar e correu em direção à porta. A esposa, já histérica, correu atrás dele para saber o que acontecera, mas ele nada lhe disse… apenas correu o mais rápido que podia pelas ruas da cidade, segurando o chapéu para que não lhe caísse da cabeça. Chegou ao edifício onde Lúcia morava e, com passos largos, subiu até o terceiro andar. À frente do apartamento, podia ouvir o barulho e, em seus pés, podia observar a água correndo por debaixo do vão da porta. Em um ato impensado, chutou a porta, derrubando-a. Correu até a banheira e viu a mulher inconsciente, duas poças vermelhas ao lado dela e, em sua mão esquerda, toda ensangüentada, a carta que ela escrevera. Tomou a folha em suas mãos e leu as palavras ali: seu nome constava pelo menos meia dúzia de vezes; colocou o papel no bolso do paletó, junto de seu relógio e tentou acudir sua amante.

Lúcia sentiu-se levitar; estava nos braços do amante. Ele não falava nada… sua expressão estava fechada, como nunca vira anteriormente. “Você veio” ela disse, tentando erguer a mão direita para tocar-lhe o rosto.

Ele ouviu-a sussurrar alguma coisa, não podia distinguir as palavras que ela tentava dizer, mas pareciam juras de amor, seguidas de ameaças aos ouvidos daquele homem transtornado “Como um vice-presidente agiria numa hora dessas?” indagou-se… “Não posso ser flagrado com uma mulher morta… nua em meus braços”. Guido deitou-a na cama, tomando cuidado para que o sangue não lhe manchasse a roupa ou os lençóis. Vestiu-a com a camisola de seda que estava mais perto e, novamente, pegou-a em seus braços.

Lúcia desfalecera e, novamente acordada, estava nos braços do amante… estava vestida com a primeira camisola que ele lhe dera… ainda podia ouvir o que ele lhe disse quando a viu vestida daquela forma pela primeira vez: “Não existe mulher no mundo que fique tão linda como você em seda branca, esmeraldas e rubis… seda é como tua pele branca: macia, as esmeraldas são reflexos dos teus olhos e os rubis fazem teus cabelos ruivos mais vivos na cor da paixão: vermelho”… ela chorava nos braços dele… a maquiagem escorria pelo seu rosto e começava a manchar o branco da camisola.

Guido viu a mulher em seus braços se contorcer… parecia estar tendo algum tipo de convulsão e, apesar de acordada, tinha um olhar vazio; sua boca estava azulada e a pele fria… “ela está morrendo, não posso fazer nada mais…” pensou. Beijou-a demoradamente na testa, enquanto deixava escapar uma lágrima que lhe molhou os cabelos ruivos.

“Ele me ama, vai ficar comigo” Lúcia pensou ao ser beijada na fronte e sentir o úmido das lágrimas em seu couro cabeludo.

“Estou amenizando teu sofrimento, querida” disse ele enquanto deitou-a novamente na banheira, sob o olhar atônito dela.

Na mesma posição em que ele a encontrara, Lúcia sentiu os dedos do amante acariciando sua nuca, como nas poucas vezes em que teve a chance de dormir em seu peito e ele, carinhoso como só ele poderia ser, afagava-lhe o pescoço e a nuca até que ela desfalecesse em sono profundo.

Ainda naquela posição, telefonou para o delegado, amigo de sua família, para informar o que havia acontecido. Olhava nos olhos dela enquanto conversava, calma e silenciosamente, com o amigo ”Delegado Pereira? Guido. Lembra-se da mulher que fora barriga de aluguel para meu filho? Recebi um telefonema dela, dizendo que iria se matar; corri o mais rápido que pude, mas, infelizmente, não cheguei a tempo…”

Lúcia desesperou-se ao ouvir as palavras do amante ao telefone… tentou se desvencilhar da mão que a segurava forte pelos cabelos, mas já estava debilitada pelas circunstâncias…

Ele usou sua outra mão para empurrá-la para dentro da banheira.

Lúcia, em vão, se debatia, sentindo os pulmões encherem-se de água. Era o fim de sua vida e, com isso, era o fim do amor que tinha por Guido.

 

Amor Quase Incondicional

30/09/2007

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6 responses

1 10 2007
Deborah

Definitivamente estranho…rs

4 10 2007
Annita

Eu sei que eu prometi que só vinha aqui quando eu terminasse o meu… massss eu terminei o trabalho e achei q devia ler alguma coisa q n envolvesse processo civil.
TERMINEI ÊÔ!!!!!!!!!!!!!!
E poxaaaaaaaaaaaa, tu é mal mesmo ne? Super sexy tua aura malina Maurício, mas coitada dela…. não merecia.
Agora eu vou acabar o meu. E não se preocupa não, vc é melhor nisso do que eu.
posso roubar o fim?
Bjs

9 10 2007
Anônimo

Ela merecia o fim que teve! rs

Beijo, beijo.

Vivi.

9 10 2007
Vivi

Eu sou a anônima ^

Rs =P

18 10 2007
ANNITA

TERMINEI!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

15 02 2010
Suziêda

oi amore muito lindo…eu posso copiar?

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