Banheiro

Esta sempre foi uma das minhas maiores curiosidades… acho que fui uma criança frustrada por nunca ter entrado em um banheiro feminino (depois de começar a ir no banheiro sem a minha mãe para me ajudar, pelo menos…)

Estava a pé pela faculdade… caminhava para a aula das 15:30 pelos corredores vazios que pareciam mais os de um shopping center… largos, com muitas vidraças e um piso lustroso… mas aquele era o prédio certo: fachada antiga, algumas estátuas de deuses antigamente venerados, mas que hoje habitam apenas nas edificações históricas e nas mentes de poucas pessoas que ainda preservavam seus feitos… além disso, as poucas pessoas que transitavam pelos caminhos ao redor estavam com seus cadernos, livros… um sinal de que aquilo ainda era um recinto de estudos… definitivamente era o local certo… Já estava atrasado… a turma, diminuta, certamente sentira a ausência, pelo menos temporária, de 25% do quorum… mas eles teriam que esperar mais um pouco… dois minutos talvez, pois precisava passar no banheiro antes… o refrigerante do almoço descera em excesso… agora precisava “desaguar” um pouco… nas redondezas, apenas um banheiro feminino… não importa, o toalete deve estar vazio, como todo prédio, aparentemente… em um último momento de intriga, um olhar para os lados, ninguém à vista, um pulo para dentro… por sorte, a hipótese estava certa: ninguém estava ali para ver a queda catastrófica causada por um piso recentemente enxaguado… ali dentro, um instante para a familiarização com o ambiente: nunca estivera em um banheiro feminino antes… esperava mais deles, afinal, porque, diabos, as mulheres vão sempre acompanhadas? Nem uma mesa de ping-pong, nem sinuca… aquilo era monotonamente comum… a bexiga da o aviso de misericórdia: era no vaso ou nas calças… o empurrão afobado na porta bem à frente pedia uma pequena trégua, e jurava retorno garantido… um sentimento magnífico começa a brotar do fundo da alma… nunca tinha urinado em um wc feminino antes… era mais uma das loucuras que costumam ser feitas… mas logo, vem uma lembrança em mente: eram mictórios o que tinha visto ali dentro, na parede logo a direita? Não fazia sentido aquilo…  mas, quão rápido isto veio, saiu dos pensamentos, não tinha a menor importância se com ou sem mictórios… urinara no banheiro feminino…  algo incomum, estranho, algo que certamente não comentaria com ninguém, mas que talvez um a cada mil homens já fizeram depois de largar a saia da mãe…

Necessidade feita, puxada a descarga, aberta a portinhola do “reservado”, uma surpresa… não estava mais vazio como antes… algumas pessoas trafegavam por aqui e por ali, um empurrão acompanhado de um educadíssimo “com licença” e, ainda um “segura aí”, uma mão me entrega um caderno grosso, talvez quatrocentas folhas, com uma capa verde limão e alguns tons de azul e vermelho… que mais poderia ser feito senão sentar em uma das quatro cadeiras em volta daquela mesinha circular no canto direito? Uma coisa muito normal, mas jurava que antes estas cadeiras não estavam ali… em alguns instantes, aproximou-se duas mulheres não muito abençoadas em sua harmonia face-estrutural… estava pronto para um sermão: “Isto é um banheiro feminino, será que a besta não sabe?” ou coisa pior, mas o que segue daquele momento em diante é uma conversa amigável, algo do tipo Shakespeariano, meio cantado, poético… dali a poucos instantes, a lembrança do caderno em mãos dado pela misteriosa grossura da porta… mas já não havia ninguém naquele “quartinho”… certamente teria que descobrir a dona para devolver, abre-se a primeira página para descobrir um nome… mas um tapa cerra o caderno enquanto outra recolhe-o das mãos curiosas… “Não sabes que não deves ler o que é dos outros?”, vistas desviadas para os lados enquanto uma explicação não brota dos lábios, um outro detalhe agora chama a atenção: há muito movimento à volta… e não apenas feminino… há alguns amigos passando e cumprimentando ao redor… mais ao fundo, uma voz começa a ficar cada vez mais nítida aos ouvidos: “Vocês não podem ficar aqui… se, quando eu voltar, vocês ainda estiverem aqui, vão ver só…”… o que significaria aquilo? Cambaleante, a cadeira é empurrada para trás, as pernas fazem um movimento abrupto para trás, alguns passos e a voz está claramente a frente, dirigindo os sermões antes esperados… mas é outra voz masculina… como é que poderia fazer sermões alguém na mesma situação de invasor? E o mais impressionante, sermões dirigidos, agora, às que acolheram, a pouco, um infrator. Uma parada estratégica a frente do fanfarrão e um conveniente olhar de baixo para cima, o outro se cala… sente que um par de olhos o fita com desprezo e raiva… os olhares se equalizam… “O que foi?” “Isso tá errado!” “o quê tá errado?” “Isso… é contra a lei…” “o quê? Ficar no banheiro?” -Ironicamente- “É contra a lei e tu sabe disso… eu vou até lá embaixo e, quando eu voltar, não quero ver ninguém de vocês aqui…” Com essas palavras, sem perceber, um bolo de brigões o rodeou e, psicologicamente, esmagou-o contra ele mesmo… “Calma, calma… eu quero entender o que tá acontecendo aqui…” tarde demais… os camaradas já estavam levando o mané das sandálias para o banheiro masculino… disseram que lá ele serviria de alimento ao inominável… mas isso não competia à compreensão de ninguém…

“Banheiro” – Jun/2003

2 responses

3 06 2007
Inga

Definitivamente, cada vez que leio um dos contos daqui descubro que vc vale o link.
Beijos!

20 08 2008
Rosangela

E aí matou a curiosidade!!

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