Bares da Vida

Considero esse como o meu melhor conto até agora… fiquei muito feliz com o resultado final dele… é longo mas vale a pena uma passada de olhos, pelo menos…

Alfredo está em um bar. Suas atenções estão voltadas ao dinheiro do caixa: esteve contando-o nas últimas duas horas, desde que o bar fechou. A música ao fundo perturbou-o um pouco: teve de recomeçar a contagem algumas vezes. Em uma mesa, ali perto, seu sócio e amigo Antônio observava-o calado durante todo tempo; sempre deixava a parte financeira com ele e, apesar de cansado, sempre o esperava terminar para que, juntos, fechassem o estabelecimento.

Não percebera o tempo passar – não apenas os últimos minutos, mas também os anos – olhava para as luzes do bar, como tentando relembrar alguma coisa. Nada lhe ocorria. Retomou a conta, já estava no final:

– Dezesseis mil, quatrocentos e trinta e cinco. Nem um centavo a mais ou a menos. – Finalmente declarou em voz alta.

– Uma boa quantia para uma noite de quinta-feira. Estamos indo de vento em popa! Quem diria que um sonho de faculdade fosse gerar tão bons frutos?

– Mas temos que retirar nossos gastos, isso vai nos dar, mais ou menos, dois mil de lucro cada um… ainda continua bom, não?! – Sorriu, enquanto virou o rosto para o amigo à mesa – Encarando o passado friamente, como a faculdade nos ajudou a realizar isso?

Ambos caíram na gargalhada, achavam que a única coisa boa dos tempos universitários foi o fato de encontrarem amigos tão bons a ponto de tornarem-se sócios e inseparáveis, mesmo após tanto tempo. Mas isso estava para mudar ainda naquela noite.

– Sabe qual a melhor parte de tudo? Ficar no balcão fazendo os drinks… as mulheres se jogam para dentro, pedindo pra mexer elas como faço com as coqueteleiras…

– Que nada! – retrucou Antônio – O melhor da história foi ter saído solteiro da faculdade; a história teria sido totalmente diferente… eu estaria, agora, de pijama, levantando por causa do casal de gêmeos chorando ao quarto do lado… e amanhã, às seis da manhã eu estaria acordando para mais um dia inteiro à frente do computador, ganhando por mês o que faturamos em um final de semana… sem querer, me livrei de uma fria… – E riu sonoramente, mas desta vez, Alfredo permaneceu calado. – Não achou engraçado? – amarelando o sorriso.

– Em um dia normal eu acharia, mas este está longe de ser uma noite normal. Você pode ficar com a minha parte dos lucros se adivinhar quem veio aqui hoje.

– Para você apostar alto assim, deve ter certeza de que nunca vou pensar nessa pessoa. Fala logo, quem você viu?

– Você nunca foi bom apostador… a “fria” da qual você se livrou. Ela veio me cumprimentar no bar. Pediu aquele drink que você inventou pra ela que, aliás, nunca realmente fez, eu sempre fui o dono do álcool. Lembra, aquela bomba, com vodka, rum, açúcar, limão, champagne e o “ingrediente secreto” que não revelamos nunca pra ninguém?

– Se me lembro da bebida: foi a primeira vez que se rompeu aquele escudo protetor que ela sempre tinha contra tudo e todos… os resultados foram engraçados: até batizamos de “Queda do Muro de Berlin” ou só “a Queda”… poderíamos vender aqui, mas uma versão mais fraca, senão teria que contratar um trator para juntar os “corpos” no fim da festa… O que ela achou do lugar?

– Na verdade, já a tinha visto aqui algumas vezes antes, mas me pediu para não comentar nada. Fiquei surpreso por você nunca tê-la visto, afinal somos os únicos barmen da casa…

– Mas você sabe que eu fico no outro bar, lá em cima. Se alguém quisesse, teria um ambiente inteiro para usufruir sem me encontrar… mas conta, como ela está?

– Está ótima – Alfredo tentou disfarçar, mas o olhar do amigo o fez prosseguir – disse que acabou com o noivo, aquele cara dos tempos da faculdade, há algum tempo… me pediu qual era o ingrediente e eu desconversei, dizendo que se não revelei quando era uma brincadeira, quem me culparia por não fazê-lo agora, se dependo do sustento que eles me trazem… essas coisas.

– Você se lembra quando nos conhecemos, na primeira semana da faculdade, quando pedi um caderno seu emprestado e você me disse que não estava com ele naquela hora? – Alfredo consentiu, já conhecendo o restante da história – Pois bem, desde aquele momento eu sei identificar quando você mente ou esconde alguma coisa… e agora estou com essa impressão…

– O que mais você quer saber? É só perguntar que eu respondo. Desde os tempos de aula, quando vocês tiveram aqueles casos e ela me confidenciava tudo, eu te contava o que você queria saber…

– Não sei. Esperava que você tivesse alguma notícia bombástica, como nos velhos tempos; todo dia vinha me contar alguma diferente, acho até que inventava algumas coisas! Bom, vamos começar de leve então: está bonita?

– Eu poderia dizer que esses dezoito anos de formatura fizeram bem para ela; lembra que ela não era nenhuma unanimidade naquele tempo, né? Agora eu diria que está muito bem e, como você sempre foi amante de olhos claros, diria que ainda cairia de queixo no chão se a visse.

– Eu estou em outra fase agora, aquilo foi uma paixão quase adolescente…

– Paixão adolescente de cinco anos? Essa paixão quase virou de terceira idade…

Antônio interrompeu-se, ao perceber a expressão vaga de Alfredo. Este começou a olhar fixamente para o balcão do bar onde, imaginava, ela teria parado para conversar com o amigo, tentava imaginar as feições tantos anos depois de terem se encontrado pela última vez; surpreendeu-se ao perceber que não mais guardava na memória o rosto que antes despertara tamanho desejo.

– Não consigo lembrar como ela era. Quer dizer, os olhos, os lábios, o nariz, o formato do rosto, consigo enxergar tudo em separado, mas não “montar” o rosto. Parece que uma neblina escureceu minha memória…

– É o peso da idade!!! Lembra quantos anos passaram da nossa formatura? Olha ali os dois diplomas enfeitando a parede: quase dezenove, amigo. A idade está pesando nos ombros, não acha? O peso das quatro décadas. Querendo ou não, estamos envelhecendo e, contra o tempo, só podemos esperar uma derrota…

– Dezoito anos de formatura… nossa, parece que foi ontem… nós entrando na faculdade, o desespero das provas, os domingos fazendo trabalhos, a formatura: a cerimônia, o jantar, o baile – Com o olhar mais vago ainda, Alfredo começou a se perder em seus pensamentos, nunca contara a ninguém o que acontecera naquela noite: a última vez em que Antonio fizera, oficialmente, a “Queda do Muro de Berlim” àquela que o mereceu pela primeira vez.

Sua vista começou a embaralhar. As memórias começavam a se materializar diante dos seus olhos: a amiga, mais linda do que nunca, chorava em um canto porque o namorado não conseguira dispensa do trabalho, em outra cidade, para comparecer à formatura. Estava desconsolada, dizia não querer se formar mais, que ele nunca estava presente quando ela mais precisava de apoio. Alfredo sentou-se ao seu lado, bateu propositadamente em sua perna com o braço, fazendo-a desviar os olhos do chão para ver quem estava ao seu lado. Ele sabia como acalmá-la, fizera-o inúmeras vezes durante as semanas de provas: conseguia desviar sua atenção para outros propósitos e, naquele dia, não seria muito difícil, com toda cerimônia para acontecer em tão pouco tempo. Não demorou meia hora para arrancar um sorriso de seus lábios; ajudou-a a enxugar as lágrimas, colocou-a em seu ombro direito, como se uma criança fosse, e levou-a, entre brincadeiras e gargalhadas, até a sala de maquiagem falando, para as mulheres dali, que só queria vê-la saindo dali para atrair todas as atenções no palco.

– Alfredo, você está acordado? – riu-se Antonio – Não me diga que está pensando na formatura?

– Estou sim… mas ainda assim, não consigo “montar” um rosto…

– Lembra-se como ela estava antes da cerimônia? Todos sabíamos que só você poderia fazer ela mudar de idéia e parar de chorar… como sempre, não demorou muito… e depois, no palco? Lembra como ela estava no palco? Confiante, destemida… nem parecia ela mesma. Você mudou ela da água para o vinho em meia hora… aquela noite foi muito estranha…

– É, aquela noite foi diferente daquilo que todos nós imaginamos… não sabe como.

– Sei sim – atropelou o amigo – se fosse depender somente de você como fonte de informações, estaria ainda engatinhando nesse mundo. Ela me contou algumas coisas, outras, não só eu, mas metade da festa, viu naquela noite. Em uma das primeiras vezes que veio aqui, há uns três meses, pedi para o Humberto tomar conta do bar, enquanto nós conversávamos no caixa, que estava tranqüilo ainda; você sabe que ela sempre me tinha como psicólogo e…

Alfredo não ouvia, mais uma vez, o que o amigo dizia, suas atenções estavam voltadas ao baile de formatura. No bar, Antonio – alguns cabelos grisalhos e rugas a menos – preparava, sob olhares atentos, as últimas doses oficiais da famosa bebida: todos esperavam que ele revelasse naquela noite o obscuro “ingrediente secreto” que ninguém jamais adivinhara; após misturar todos os conhecidos na coqueteleira, pegou desajeitadamente uma toalha. Deixou-a cair, agachou-se para pegá-la e, ao seu retorno ao nível dos olhares dos demais, uma garrafa, totalmente envolta na toalha, estava sendo virada para completar o drink, para a infelicidade dos amigos. Alguns, mais animados, esticaram os braços, na tentativa de tirá-la dele, mas os esforços foram repelidos por um simples passo para trás, seguido de uma forte gargalhada, que Antonio conservava até os dias atuais. Em uma das mesas, Alfredo observava tudo e, ao desfecho do capítulo, riu-se, pensando na decepção dos colegas se descobrissem o segredo. Pegou um cálice, com uma bebida levemente escura e levantou-a ao amigo, que agradeceu o brinde, levantando a própria coqueteleira. Naquele instante, Alfredo sentiu-se observado e, virando o rosto, viu que mais uma pessoa participava do brinde entre amigos. Ela aproximou-se e sentou-se ao seu lado, brindaram à formatura. Alguns instantes se passaram, entre o silêncio dos dois, alguns goles e lembranças, até que ela interveio:

– Não sei como lhe agradecer pelo que me fez antes da cerimônia. Aliás, durante toda a faculdade você só fez me agradar, não sei como conseguiu tantas vezes, mesmo depois do que aconteceu.

– Não precisa agradecer. Você é uma das poucas pessoas que eu conheço que merecem toda a felicidade do mundo. Não é porque você me largou que eu vou deixar de lhe considerar minha amiga. – Alfredo olhava para o cálice entre suas mãos – Você teria feito o mesmo, não? – sorriu, desviando o olhar para as mãos dela.

– Teria tentado, mas não tenho a mesma habilidade que você. Acho que pioraria a sua situação – seu tom de voz, misturando ironia e nervosismo, encorajava-o a olhá-la. Levantou os olhos demoradamente enquanto ela retomava o monólogo – mesmo porque, você nunca demonstrou muito de decepção, sempre parecia estar com o humor intacto; você, sim, poderia ser o “Muro de Berlim” ou até a “Grande Muralha da China”, porque continua com as defesas intactas depois dos 6 anos de universidade… só um profissional no assunto para saber quando seu sorriso amarelava…

– Um brinde – interveio ele, olhando-a nos olhos – ao sorriso amarelo!!! – risos.

– É isso que eu digo, com você não existe mau tempo, até em uma conversa séria consegue encontrar uma maneira de deixar sua marca.

– Essa é a minha maneira de não mostrar um ponto fraco; disso depende minha sobrevivência, nessa selva de pedra! Coisas que só a testosterona explicam!

– Como você consegue isso? Acho que nunca consegui falar tudo que eu queria sem que você desviasse minha atenção da conversa!

– E quanto eu deveria lamentar por você nunca ter me dito tudo que queria? Quantos “sim” eu consegui de você por causa disso e quantos “não” eu evitei? – continuava fixo no olhar dela.

– Eu diria que todos os “sim” que você conquistou foi por causa disso – Ela sorria, olhando para suas mãos à mesa.

– E eu estou desviando sua atenção de novo? – provocou ele.

– Sim – retrucou, fingindo impaciência, mas com o sorriso cada vez mais aberto.

– Isso quer dizer que estou evitando mais um “não”, certo?

Ela hesitou: ele sempre pregava peças nela com joguetes de palavras. Mas, quando percebeu, já estavam afastando os lábios.

– Você! Sempre me confundindo e se aproveitando! – começou a dar soquinhos no peito dele, como em um dramalhão mexicano.

Ele abraçou-a firmemente, mantendo seus braços imóveis entre os dois corpos, olhou-a diretamente nos olhos e fulminou:

– Diz que você está confusa que eu lhe deixo sair agora mesmo…

Ela, apesar de realmente não saber o que fazer, nada disse. Sorriu e tentou beijá-lo, mas ele segurou-a; encarou-o seriamente, mas, mais uma vez, percebera que aquilo não passava de uma brincadeira dele, ambos abriram um largo sorriso, enquanto seus lábios se aproximavam mais uma vez.

Do outro lado, com a coqueteleira nas mãos, Antonio gritou:

– Um brinde!! Finalmente! Aos pombinhos!

Alfredo desviou o olhar para o amigo e percebera que tinha uma platéia observando seus últimos movimentos.

– Ah!! E eu brindei a vocês! – interrompeu os pensamentos do amigo – Todos brindamos, aliás!

– É, com um amigo como você, quem precisa de inimigos! – Gargalharam alto – Você nunca soube ser discreto!

– Mas aquele brinde valeu a pena, não foi? Lembra o que aconteceu depois?

Mais uma vez, imagens vinham aos olhos de Alfredo: após o brinde do amigo, ela fez como da primeira vez que bebera “a Queda”; puxou-o para dançar, com o cálice em mãos e deixou-se guiar por ele, dançarino pouco experiente. Após uma primeira dança, ele pegou-a no colo mais uma vez e levou-a até a mesa, sentou-a na cadeira, ajoelhou-se de frente para ela e, irônico, perguntou:

– Casa comigo?

Ela, desta vez entendendo a ironia:

– Não – sorrindo – só quero me aproveitar desse corpinho lindo que você tem.

– Cinco anos tentando lhe ensinar e justamente agora você aprendeu a ser sarcástica!? Que monstro eu criei? – Riram com cumplicidade.

– Você a pediu mesmo em casamento na festa? Ela me disse que sim uma noite. Vindo de você, não duvido de nada!

– Ela se lembra disso? Espero que não lembre de tudo que eu disse naquela noite, senão até mesmo o ingrediente não é mais tão secreto!

– Você revelou?? Tudo bem que nós combinamos que só você poderia revelar o segredo, mas você disse que só faria se valesse a pena… – calou-se, até onde sabia da história da festa, poderia ter sido proveitoso mesmo.

– Você, sempre me deixando sem jeito – disse ela – como eu vou fazer agora, se a gente não vai mais conviver? Você me acostumou muito mal nestes últimos anos!

– Porque a gente não discute isto em outro lugar? – A voz confiante dele, parecia seda aos ouvidos dela – Vem, quero lhe mostrar uma coisa. Não precisa se preocupar, é no prédio mesmo. – levantou-se e puxou-a a seu encontro. Pegou duas taças, uma garrafa de champagne e, dirigindo-se ao amigo, no balcão:

– Você tem outra dessas aí? – apontando para a coqueteleira. À resposta do amigo, positiva, prosseguiu – e esta está cheia?

– Acabei de preparar… olha a garrafa ali embaixo, acabou o “segredo”, vou ter que fazer “pura” agora, mas acho que ninguém vai notar… – e entregou-a ao amigo – Você, inventor, tem a preferência!

Alfredo agradeceu:

– Bom garoto!! – bateu no rosto do amigo, ironicamente – E quebre aquela garrafa, queime o rótulo e engula a tampa, para não correr o risco de ninguém descobrir o que é!!!

Os olhos de Alfredo, agora se perdiam entre as garrafas do bar apesar de uma champagne lhe chamar a atenção, pegou outra garrafa e indagou:

– Como foi que essa idéia me veio? Me lembro que só queria fazer a bebida mais escura, mas o resultado foi outro: seis anos de diversão e lembranças; quase vinte anos depois, por que tudo está voltando?

– O drink original já era bom, mas o seu toque especial com isto – pegou a garrafa da mão do amigo – nos fez entrar para a história, sócio! Quem diria o que estaríamos fazendo agora se não tivéssemos começado a inventar novos sabores?

– A noite de formatura, ela lhe disse como acabou? – Antonio balançou negativamente a cabeça, enquanto apoiava-se com os ombros no bar, inclinando-se para o amigo com um ar de visível curiosidade.

– Ah, se você dependesse de mim para saber de tudo, hein?!

Depois de pegar a última dose da “Queda” do atual sócio, Alfredo levou-a até o elevador, pediu para fechar os olhos, para não estragar a surpresa. Estivera, no começo da festa, desbravando o edifício, e encontrara um lugar onde poderia passar a noite inteira sentado e observando.

Quando a porta do elevador se abriu, ele colocou as bebidas no chão, tirou seu paletó e colocou sobre os ombros dela, então, novamente com as mãos ocupadas, abraçou-a pela cintura e, ao seu lado, guiou-a alguns passos à frente. Ouviu-se o barulho de uma porta ranger e, em seguida, uma leve, mas gélida brisa fê-la encolher os ombros. Mais alguns passos e ele parou. Pôs-se na frente dela, servindo as duas taças de champagne e disse que poderia abrir os olhos.

– Alfredo, antes que continue, quero te dizer uma coisa: hoje ela veio aqui, acompanhada. Era um homem, comemorando um aniversário. Está vendo aquela garrafa de champagne ali – apontando para a garrafa na qual, antes, o amigo se perdera em pensamentos – foi com isto que brindaram.

– Não vejo uma destas desde aquela época. Desde quando temos dessa marca aqui?

– Olhe o ano também. Não achou nada estranho? Eu não faço as compras, esta parte é com você.

– É daquele ano? Mas como? Não vai me dizer que…

– Ela trouxe à tarde e pediu para eu colocar no gelo para a noite.

– Como ela pôde? Brindar com a “minha” champagne o aniversário de outro? Aprendeu todo o meu sarcasmo e ainda o piorou!

– Alfredo, lembra que eu lhe falei que ela tinha acabado com o “noivo”? – Ele consentiu, não entendendo aonde o amigo queria chegar. – Na verdade eles não chegaram a noivar; acabaram alguns dias após a formatura, por causa do cara que estava com ela aqui hoje.

Suas energias, agora, se voltavam às memórias: o final da festa, no terraço do hotel. Eles brindaram algumas vezes com as taças cheias, esvaziando-as em seguida. Ela, deitada de lado, em seu colo, tinha o olhar perdido nas luzes da cidade, calma a estas horas da madrugada. Indagou:

– Você me ama?

– Como assim? Você quer saber se eu já lhe amei ou se, agora, lhe amo?

– Tinha pensado nas duas perguntas, afinal, uma leva à outra… – desarmou-o, virando-se para encará-lo nos olhos.

– Você duvida que um dia amei? Esqueceu como eu chorei por você uma vez? Mas, se amo esta noite, não vou dizer, senão pode subir a sua cabeça. – sorrindo, arrancou mais um beijo dela.

Ela pegou a coqueteleira:

– O que tem aqui? – aventurou-se a perguntar.

– Vodka, rum, suco de limão, açúcar, champagne e mais uma coisinha – riu novamente, deixando claro que não revelaria o maior mistério dos últimos anos. Mas arriscou – Tenho um pacto com o Antonio, só posso revelar quando valer muito a pena.

– Ah, é? E o que seria um caso que valesse muito a pena?? – Sentou-se de frente para ele, de solavanco – Isso não conta? Meu beijo, minha companhia, essa vista maravilhosa?

– Estamos chegando perto… não, só vou contar quando achar que, mesmo revelando, vai continuar em sigilo.

– Isso é chantagem! Você só vai me dizer se tiver certeza que eu não diga para mais ninguém? Como você poderia ter certeza? Só se for no meu leito de morte!

– Se você tivesse aceitado casar comigo, agora há pouco, por exemplo. Se eu viver sempre do seu lado, censurando suas palavras. Você não dizia que lhe acostumei mal e que não sabe como vai viver daqui para frente sem eu lhe bajulando por perto? Então…

– E se eu lhe pedisse para guardar um segredo também? Algo tão importante quanto isso? – Estava mais confiante agora; retirou o terno dele dos ombros e colocou-o cuidadosamente no chão.

– Dependendo do que você dissesse, poderia estudar seu caso. – Puxou-a ao seu encontro, deitando-a de costas no paletó que ela ajeitara – Digamos que você tenha que pagar para ver, aceita? – Encarou-a nos olhos, a menos de quinze centímetros de distância.

– E ela aceitou – continuava a narrativa ao amigo cada vez mais atento. – Depois disso, diria que uma tarja preta, de censura, pode ser colocada na sua imaginação, porque não vou contar em detalhes o que aconteceu na hora seguinte.

Antonio riu alto, do mesmo modo como o fizera no baile de formatura – Não me contando, atiça mais ainda minha imaginação…

– Enfim – prosseguiu – Depois disso, abri a coqueteleira. Ela se sentou à minha frente; eu disse: “Isto aqui, é o Amor Perfeito com Vinho do Porto. E isso” – olhei-a nos olhos, peguei as duas últimas taças de champagne – “é um amor perfeito com apenas champagne” – e virei as taças em nossas bocas, enquanto beijei-a mais uma vez.

Do outro lado do bar, escondido nas sombras, um rapaz, que viera acompanhado de sua mãe para comemorar seu aniversário de dezoito anos, deixava escapar lágrimas:

Pensava – Obrigado mãe, por finalmente me deixar saber sua história. Obrigado, Antonio, por, indiretamente, deixar-me ouvi-la de meu próprio pai.

“Bares da Vida” – Fev/2005

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2 responses

4 09 2006

Bem .. bem… esse é o meu preferido tbm!!!
Não que os demais não seja legal, mas esse ficou show!

Tem futuro, hein…
Bjão!!

2 09 2009
MEder

Só para responder aos que me pediram… o drink “Amor Perfeito” existe sim. E logo abaixo está a receita…

1 parte de vodka
2 partes de rum
1 colher de açúcar
1/2 limão – Champagne

Bater tudo menos a Champagne no liquidificador com gelo.
Encher os copos até a metade e completar com Champagne.

Só para constar, nunca fiz este drink e muito menos coloquei vinho do porto para ver como fica… a história é meramente fictícia, até mesmo no fato da existência do famoso “A Queda”… hehehe

ABracetas
MEder

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