Coma

Sem muito o que falar… me baseei num texto de uma amiga (Fernanda Riggon) que li há uns 3 anos atrás… se eu tivesse ainda ele salvo aqui eu publicava… =/

Giovana acordara de um sono profundo sobressaltada.Levantou-se da poltrona e, como inúmeras vezes nos últimos meses, colocou a mão aberta na testa de Lucas, que estava com o semblante calmo e, pareceu aos olhos dela, que sorria, se isso fosse possível de se enxergar. Ele parecia-lhe lindo, apesar dos tubos que entravam pelo nariz e os aparelhos que ‘bipavam’ a cada batimento cardíaco dele. Puxou uma fina corrente dourada de seu próprio pescoço e observou por alguns instantes, lado a lado, as alianças que ele planejara lhe dar no dia do acidente…

 

Lucas estava afoito… queria que aquela sexta-feira de trabalho acabasse logo. Estava com as malas prontas no carro e bastava pegar sua namorada, Giovana, para a viagem de comemoração dos quatro anos de namoro. Dissera e ela que passariam o final de semana na praia, embora tinha outros planos em mente: como eram amantes de esportes radicais e do contato com a natureza, acampariam num parque ecológico que continha inúmeras cachoeiras. Tinha, escondido dentro de seus tênis de trilha, um par de alianças para pedir sua Gi em noivado no ponto máximo da emoção planejada: no meio do rapel que pretendia fazer, na maior cachoeira da reserva.

 

Giovana riu nervosamente, enquanto repousava seu rosto delicadamente no peito dele… segurou sua mão e apertou levemente, para não retirar a sonda que ele possuía no dedo:

– “Volta pra mim, Lu… não consigo viver sem ti… encontrei isso lá na cachoeira e ainda espero por uma explicação” disse, colocando os anéis na mão dele e fechando-a, como se estivesse entregando-as a ele.

 

– “Chegamos!”.

– “E tu chama isso de praia?” Perguntou Giovana, ao ver a mata fechando ao redor deles.

– “Não… chamo isso de um final de semana emocionante e diferente… inesquecível!” – Riu ele, já descendo do carro e pegando duas mochilas no porta-malas.

– “Porque me disse que iríamos para a praia, afinal de contas? E onde vamos dormir no meio dessa floresta?”.

– “Vamos dormir aqui…” disse ele, tirando uma barraca do carro e jogando-a no chão, perto dos pés dela “e, se eu dissesse que viríamos acampar, estragaria a surpresa… Está ouvindo esse barulho?” Perguntou ele.

– “O quê?” retrucou ela e, em silêncio, escutou o que Lucas queria q ela percebesse “Uma cachoeira?”.

– “Uma não… até onde eu sei, num raio de dois quilômetros a gente pode encontrar quatro delas”.

Giovana agarrou-se no pescoço dele, beijou-o demoradamente e agradeceu.

– “Não agradeça ainda… olha no porta-malas o que eu trouxe…”.

Ela franziu a testa e, curiosa, olhou para o material… quase chorou de alegria ao ver as cordas e os dois capacetes… sabia o que Lucas queria dizer: finalmente fariam um rapel juntos.

– “Bom, mas hoje temos tempo apenas de preparar a barraca e comer alguma coisa antes que escureça de vez…” disse ele.

 

Giovana precisou se recuperar por alguns dias antes de cogitar a idéia de voltar ao lugar. Saíra correndo às pressas naquela tarde de sábado para levar Lucas ao hospital. Deixara para trás a barraca e as mochilas e, por mais que não gostasse da idéia, tentaria recuperar alguma coisa do que ficara para trás. Chegando lá, tudo estava no lugar onde deixaram: as mochilas, a barraca, as lenhas e as cinzas da pequena fogueira… Não segurou o impulso de voltar à cachoeira em que tudo ocorreu: a corda ainda estava lá, pendurada na cachoeira… podia ver o capacete dele lá embaixo, na beira do rio… decidiu ir até lá para pegá-lo. Desceu pela corda que Lucas havia prendido… parou duas vezes no caminho para chorar, tamanha a tristeza que havia dentro de si. No local onde ele caíra, parou novamente… olhou para as pedras, procurava um motivo para um escorregão ou algo que justificasse a queda dele: nada encontrara. Ao retornar para a descida, aparentemente sem razão, seu mosquetão soltou-se da corda e, se não fosse pelo milagre dela enrolar-se em sua perna, suspendendo-a de cabeça para baixo três metros abaixo dali, teria seguido o mesmo rumo de Lucas. Cerca de 20 minutos depois de começar a descida, estava ao lado do capacete. Abaixou-se para pegá-lo e viu, preso na estrutura interna do mesmo, os anéis… despencou de joelhos e, com as mãos no rosto, chorou copiosamente.

 

– “Vamos lá… sei que vai adorar essa cachoeira… não tem muita água e é fácil pra descer… já estudei onde prender as cordas… só temos que atar os nós para tomarmos um banho pendurados” disse Lucas, puxando ela pelo pulso.

Giovana estava ansiosa pela descida… já fizera isso, assim como ele, inúmeras vezes, mas nunca juntos. Nunca o vira tão excitado falando de uma queda d’água e, por isso, aquela deveria ter algo de muito especial.

Cordas atadas, conferidas e re-conferidas, posicionaram-se e deram-se as mãos.

– “Primeiro tu”, disse ela.

– “Não, tu primeiro, ou vamos juntos… mas eu não vou antes…” instigou ela, com um sorriso delicioso nos lábios.

– “No três então” – Afastou-se dela dois passos, para não correrem o risco de se chocarem no primeiro passo – “Um… dois… três…”

Os dois desceram vagarosamente o primeiro metro, olhando para as pedras aos seus pés a para as pedras nos pés do outro.

– “É maravilhosa!” disse Giovana, olhando para cima, já na metade da altura.

– “Me espera… sempre apressadinha, né?” respondeu Lucas, tentando disfarçar o nervosismo. Ao alcançá-la, Lucas segurou-a pela mão e puxou-a ao seu encontro… abraçou e beijou-a naquele cenário fantástico em que estavam.

 

Ela olhava para ele… lembrava-se como se conheceram, como começaram a sair e quando ele pediu-a em namoro, por gestos, enquanto mergulhavam num recife de corais, cercados por tartarugas e tubarões. Não segurou as lágrimas e apertou a mão dele contra o próprio rosto.

– “Por que faz assim comigo? Não consigo viver sem ti… eu te amo e te quero do meu lado para sempre… volta pra mim, amor!” suplicava ela, sem obter resposta alguma dele. Cerrou os punhos e socou o colchão da cama, como procurando um culpado para sua sorte… ainda sem resposta… afastou-se dele e pôs as mãos no rosto, chorando do mesmo modo ao encontrar as alianças na cachoeira.

 

– “Eu te amo, Giovana!” – Lucas gritou o mais alto que pôde, apesar do ruído da água não ser muito forte. “Eu te amo e quero toda essa natureza como testemunha… que tudo e todos saibam que tu és a mulher da minha vida! Quando eu vi essa cachoeira, sabia que seria nela que iríamos descer juntos pela primeira vez… imaginei tudo isso, passo a passo, minuciosamente” e tirando o capacete, sob o olhar atônito, mas atento e curioso dela…”Giovana acima de tudo. Amor eterno…” e assim, tão de repente quanto um relâmpago num dia de sol, Lucas sumiu dos olhos dela… descia rapidamente até o fundo da cachoeira… caía… Lucas não teve muito tempo, na queda, imagens cruzaram meus pensamentos: Giovana, família, gritos. Medo, frio, infância. Água, vozes… gritos. Choro… tontura, fraqueza. Escuridão. Silêncio.

Ela não sabia dizer ao médico, no hospital, como havia tirado ele da mata, arrastara-o até o carro com todas as forças que tinha – e mesmo as que não tinha – colocara-o no carro e subira a serra pelas estreitas curvas sinuosas da perigosa estrada até avistar o primeiro sinal de civilização: uma pequena cidade que possuía, apenas, um posto de saúde. De lá, chamaram uma ambulância e o transportaram até o hospital mais próximo. Onde Giovana estava, agora, sentada ao lado do corpo inanimado dele… segundo os médicos, não podia-se predizer quando ele acordaria do coma e ela, de imediato, decidira ficar ali até que isso acontecesse… passaram-se quase 85 dias até então… raras vezes ela saía do lado dele… tomava banhos rápidos e contava com a ajuda de sua família para trazer-lhe roupas e das enfermeiras para buscarem a comida no refeitório do hospital. As únicas vezes que saiu do hospital foram para voltar à cachoeira e para pedir dispensa no escritório – rapidamente concedida pelo seu supervisor. Cuidava e conversava com ele. Achava que poderia trazê-lo de volta…

 

A despeito do que os médicos disseram, levantou a cabeça de Lucas e, cuidadosamente, engatou as pontas do cordão de ouro em volta do pescoço dele. Segurou os dois anéis na mão e leu, em voz alta, os dizeres da parte interna: “Lucas. Amor eterno, acima de tudo”. Uma última lágrima escorreu-lhe o rosto e molhou o peito dele. Olhou o outro anel:

– “Giovana acima de tudo. Amor eterno” ela conseguia ouvir a voz dele falando aquilo… por inúmeras vezes ele dissera, nas ocasiões mais inacreditáveis, até mesmo enquanto caía da cachoeira…

 

– “… amor eterno…” Ela arregalou os olhos “… acima de tudo, Giovana… meu amor é eterno…”

– “LUCAS!!”

Ele abriu os olhos. Demoradamente, a imagem do lindo rosto de sua Gi tomou formaa sua frente. Lágrimas rolaram pelo seu rosto.

– “Eu sempre soube que ia acordar… não saí do teu lado por nada… sempre soube…” ela sussurrou.

Começaram a chorar. Ela abraçou-o fortemente, suas lágrimas encharcavam seu ombro.

– “Eu… também…”.

– “Trouxe isso…” disse ela, tirando a corrente do pescoço dele e colocando, mais uma vez os anéis na palma da mão de Lucas. ”Consegui encontrar embaixo da cachoeira, junto do teu capacete”

– “E quase caiu na cachoeira…” – completou ele.

Giovana arregalou os olhos…

– “Eu enrosquei a corda do jeito que pude na tua perna… não podia te perder” disse ele, olhando para as alianças. “Eu não podia te perder… tinha que te entregar isso. Giovana acima de tudo. Meu amor eterno”.

 

Coma

19/12/2007

One response

29 05 2008
Stephani Almeida

Puts…Amor eterno e um pouco de paz.
O que há de melhor?
=)

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