Acre Lágrima

Este poderia ingressar na minha coleção negativista, a não ser pelo fato de eu estar muito feliz quando escrevi…

Uma lágrima correu-lhe o rosto pálido. Os olhos, avermelhados pelos sentimentos, expressavam a dor de uma perda irreparável Os soluços se repetiam na boca entreaberta, enquanto palavras eram engolidas, talvez para não piorar a despedida, talvez por não existir mais o que ser dito ou ouvido.

De joelhos, implorava pela volta da pessoa amada. Seus braços estendiam-se ao lado do corpo, enquanto os ombros pareciam-lhe pesar toneladas. Sentou-se em seus próprios calcanhares, as mãos tocaram o chão, mas pareceram não sentir tal contato. Na memória, momentos felizes aguçavam ainda mais seu pesar. Sua mão, enfim, tentou buscar seu par de anos de devoção, logo após enxergar triste olhar por sobre os ombros que se afastavam, mas dedos não se entrelaçam e seu braço acabou por despencar para a posição vertical novamente.

As lágrimas eram mais freqüentes agora. Os soluços mais fortes e audíveis. Na boca, o gosto salgado do choro. Isso lhe lembrava quando não chorava, mas confortava as angústias de seu amor: seu pranto sempre traria de volta uma orgia de lembranças a sua boca e, para sempre, chorar lhe faria sofrer ainda mais; e faria com que sentisse o paladar acre pela vida, pois tão injusta é a existência e tão amarga é a despedida. Levou as mãos ao rosto, entregou-se ao choro compulsivo, quase infantil. Não tinha mais controle de si. Tentou gritar um nome, mas regurgitou apenas sons guturais, abafados pelas próprias palmas, ininteligíveis a qualquer um, menos a quem, realmente, lhe interessava. Afastou os punhos da face alguns centímetros, mas tinha os olhos fixos nas linhas, por inúmeras vezes “lidas”, de suas mãos. Por alguns segundos, lembrou-se do primeiro beijo, a primeira vez em que foram ao cinema, o primeiro “Eu te amo” dito, o primeiro feriado em que viajaram, a vez em que enfrentou os seus pais pela primeira vez, quando lhe apresentou os seus, no primeiro Natal que passaram juntos, o Ano Novo daquele mesmo ano, à beira-mar, uma garrafa de champagne e ninguém em um raio de alguns quilômetros, o amor e a amizade, o beijo apaixonado e o ombro amigo; tudo se fora com apenas uma palavra: “Adeus”. Um último e tímido beijo de despedida, e o gosto, salgado, permanecia em sua boca. Lágrimas se misturavam no último contato dos dois rostos, as mãos dadas e, repentinamente, dedos não se entrelaçariam mais; nada disso aconteceria outra vez. Tão difícil é enterrar um verdadeiro amor. Tão acre é o sabor da despedida

“Acre Lágrima” – Mai/2006

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