Delírios de Uma Viagem

Este é o ponto onde tudo começou… foi em uma viagem de ônibus que comecei a me instigar a escrever para mim mesmo, e não para impressionar uma guria e tal… Depois disso, bem… depois disso, o mundo nunca mais foi o mesmo (pelo menos o meu mundinho…)

 

Ele está no ônibus, sem o seu livro, que ficara em casa porque hoje tivera prova. Neste dia, o livro seria um peso morto, era o que pensava; agora seria de boa ajuda: trinta minutos em um ônibus lotado parece muito mais que trinta minutos. Por sorte, está sentado. Não sabe o por quê, mas hoje quer escrever; também não sabe sobre o quê, mas nada lhe parece bom o suficiente para que pegue uma folha e a lapiseira de dentro da pasta. Ele está quase dormindo… As idéias lhe correm na mente; assuntos vão e vêm com uma velocidade incrível, talvez superior à da Luz… Pensa em versos baratos, sobre o amor: presente e passado; sobre os últimos verões e invernos: pura aula… Quarenta minutos. Assim, sem assunto, as palavras lhe correm da ponta da lapiseira, quase frases soltas com pinceladas de sintaxe de um autor que nunca gostou de escrever. Nunca fora de ler muito, gostava da parte prática da vida; mas hoje está desinteressado de tudo que antes lhe despertara atenção; exceto o amor. Olha para o dedo e lembra do semblante de sua amada. Mas isto não é para ser sobre o amor!!! Quarenta e cinco minutos. Nada lhe passa pela cabeça (ou melhor, tudo passa por sua cabeça, mas nada ali permanece o tempo necessário), apenas alguns versos, mas agora não lhe importa se existe um lado com todo esse carnaval e um outro com a fome total… Só lhe importa a vontade de escrever, pois lhe parece a única companhia num lugar assim, tão cheio de estranhos; tão cheio de solidão. Sim, talvez tenha sido isto que despertara a vontade de escrever: a solidão que sente em um lugar tão cheio de nada!!! A viagem é longa: cinqüenta e cinco minutos… e contando… o engarrafamento é monstruoso… o ônibus continua lotado. Mas parece que o trânsito está melhorando… ele espera estar em casa em vinte minutos. São só mais vinte minutos de tortura. Isto!!! Tortura é o que define este sentimento pela escrita. Nunca gostara de escrever de fato. O faz agora porque não acreditara que pudesse; e continua vendo que lhe é impossível: nenhum assunto lhe vem em mente a não ser o amor… Mas não será disto que dissertará… não tem intimidade suficiente com a escrita para fazê-lo… Mais um pouco (talvez três curvas) e chegará a seu destino… e nada lhe parece digno de uma página de caderno… Os vinte minutos, na verdade, foram dez… ótimo!!! Mas por todo este tempo não escrevera uma palavra sequer. Parece-lhe que toda viagem fora em vão; procurava seu livro mais uma vez em sua pasta… não estava lá… decepção. Agora ele olha para esta viagem e vê que talvez ela nem ocorrera com ele, talvez seja só um delírio, ou coisa parecida… Vê e sabe que tudo cairá em esquecimento, entende que a memória não lhe é favorável, bem com as palavras… E está desolado… pois esta página… NUNCA FORA ESCRITA!!!

 

Delirios de Uma Viagem – Jun/2002

One response

10 01 2007
Cris

Hey… gostei e me identifiquei… ufff… já passei por essa tormenta, este duelo etre ânsia de escrever e desencontro com as palavras.
É amigo, às vezes elas nos abandonam e, às vezes, justamente neste momento, nasce o escrito mais lindo, aquele que não se rabisca no mesmo momento, aquele que vem depois, de mansinho, quando a gente menos espera, e, finalmente, se incorpora em palavras… Aí é um alivio tremendo que prova que vale a pena escrever… uffff

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: